Hoje, segundo sábado de agosto. Ela resolver bater em minha porta... mas justo hoje?! Nesse dia chuvoso em que eu permaneço com a minha solidão e a cabeça encostada na cabeceira da cama escrevendo sem parar, acendendo um cigarro após o outro, bebendo toda a garrafa de café e quase nu. Nu por dentro, sentindo frio. Você! Que me deixou nesse afago e necessidade de ti, não seria maldade? Logo às 2:34 da madrugada, depois de eu ter tomado um banho e estar sentado em frente a TV, com o mesmo bloco de notas, o quarto maço de cigarro e outra garrafa de café. Você só faz maldade, mulher. És o meu veneno preferido... Bateu na porta do meu apartamento com o corpo todo molhado enquanto lá fora chovia incessantemente e eu jamais imaginaria que apareceria ali: com cheiro de cigarro (e você nem fumava), essa maquiagem toda borrada e o cabelo pingando bastante água de chuva no seu pequeno guarda-chuva... que surpresa sinto em vê-la e sentir sua respiração ofegante por subir desesperadamente as escadas com medo de não me encontrar. Seu guarda-chuva está quebrado e você nem reparou. Ela abriu um papel branco com umas letras borradas e jogou em meu peito. Começou a falar o que, segundo ela, estava registrado ali: naquela folha que até cheirava a seu perfume (ou talvez cheirava a cigarro). O seu cabelo assanhado lhe dava uma aparência de louca, parecia que estava mais paranoica do que quando lhe conheci naquela festa chata e quase vazia. Os seus olhos me imploram socorro, bem mais do que quando os avistei pela primeira vez. Deve haver algo literalmente importante para que chegue assim, de surpresa, depois de tanto tempo. Até pensei que tivesse se mudado para longe como tinha dito que faria meses depois de termos colocado um “ponto final” em tudo. Mas você apagou o ponto final e em seu lugar colocou uma vírgula. Quanta loucura... Olhe só para meus olhos, levante esse rosto! Sabe bem que não sou um monstro e que fugistes da primeira vez porque preferiu assim. Louca. Livre, leve e solta. Porém, não leve e muito menos livre, prisioneira de suas vaidades. Me disse que mesmo que eu fosse um tremendo babaca e lhe trocasse por noites e madrugadas na rua ou nos bares bebendo com os amigos, jamais desistiria de mim, como havia dito assim que chegou em minha vida. Mas as atitudes descritas não foram bem as minhas. Me disse que eu era um medroso e covarde, mas que havia deixado o coração em minhas mãos e não o queria de volta, queria que eu voltasse a cuidar bem dele e pediu para que eu parasse de ser tão egoísta. Eu não sou egoísta, ou talvez eu seja, mas só contigo. Eram essas coisas que estavam escritas naquele papel borrado que você atirou em mim e desceu as escadas sem ao menos me dar a chance de segurar forte em seu braço e pedir para que não fosse. É uma pena que eu não saiba mais onde lhe encontrar, o número e endereço descritos na carta eram justamente o que tinha escrito de caneta vermelha, da qual a chuva (talvez por ironia) fez questão de borrar assim como você borrou toda a minha vida.