Eu a avistei de longe: sentada na cadeira da lanchonete que
sempre frequento. No fundo eu sabia que ela vivia sem tempo para tudo, era o
que os seus olhos me diziam. Pensava tanto que lhe faltava tempo para concluir
seus pensamentos que mais pareciam infinitos. Insistia em mostrar o quanto era
forte, mas fingir não era bem “a sua praia”. As pessoas que estavam ali (exceto
eu), falavam alto, contavam de seus problemas no trabalho, da garota que
conheceu noite passado, do homem que quase beijou os seus pés, mas eu
permanecia calado. Gostava de observá-la naquele momento tão barulhento de sua
mente. Sem querer, a decepção escorreu por seus pequeninos e cansados olhos e
já não havia mais nada que conseguia fazer para esconder o que realmente faz
parte de si: a fraqueza e a vulnerabilidade diante das decepções. Queria
abraçá-la sem parecer louco, dizer que isso também acontece comigo, porém,
essas coisas vão embora e mesmo que um dia voltem a ocorrer, irão embora
novamente. É quase que uma lei da vida. Há momentos em que ela esquece de tudo
aquilo que tem lhe impedido de seguir alegremente, noutras vezes, encosta a
cabeça na mesa que está diante dela e deixa a mente vagar e inunda-se de paranoias.
E isso é tão sem querer... sei bem como
ela se sente. Ninguém gostaria de ser paranoico assim como eu sou, por exemplo.
Mas enfim... voltamos a falar dela. Sempre foi assim. E a cada tempo que passa
ela tatua em si o estado de loucura em que tem vivido e isso torna-se cada vez
mais permanente. Nem cigarros, bebidas, maconha ou café conseguem aliviar
momentaneamente o que tem sentido. Porque ela esquece de tudo por um tempo e
logo depois lembra-se de tudo, mais uma vez. É como se fosse um ciclo vicioso
do qual ela participa forçadamente, mas sua vida toda é assim, repetitiva e
cansativa. Quando acha que algo mudou, é aí que se engana. Parece que sua vida
gira entorno de uma só coisa: “tudo que é bom dura pouco”. Não precisou me
dirigir sequer um “olá” para que eu percebesse tudo o que se passa dentro dela,
é impossível esconder de qualquer um que pára pra observá-la. E não mais consegue
acreditar que há alguém que faça-a reerguer-se, que lute por essa merda que ela
tem se tornado a cada dia vivido, que una as forças que possui com as dela, que
quase não existem mais. E ela fica ali, quieta em seu canto, não quer
decepcionar nada e ninguém. Levanta a cabeça, ajeita o cabelo, acende o
primeiro cigarro do maço e beberica o seu café. Não quer acreditar em mais nada
e não quer viver mais nenhuma aparente história de amor até que por algum
milagre alguém resolva não desistir dela como das outras vezes e
independentemente do que aconteça, não solte suas mãos e lhe deixe ali sozinha,
sentada naquela cadeira e de cabeça baixa rezando para que se houver uma nova
chance, que seja diferente e que unam a sua força com àquela que lhe resta e
quase não existe.
