Ainda não mudei minhas coisas de lugar nem nada daquilo que pertence à mim. Deixo onde está talvez por fadiga ou acomodação, mas deixo. Transpareço não muito claramente o que sinto ultimamente, talvez isso me torne um pouco mais sufocada, mas eu própria me afogo sem precisar de motivos óbvios e pessoas óbvias demais. Como água corrente e agitada, numa hora dessas eu paro como se não precisasse de chuva para me mover. Pois chove aqui e eu continuo calma. Concentrei-me na seca trazida pelo Sol e tornei-me água parada que não move-se e claramente não possui ondas, enquanto algum olhar distante me percebe em meio aos devaneios de um poeta que procura inspiração para compor algo que lhe tire do sufoco... É que escrever e poetizar traz boas calmarias a um ser agitado. Nem sempre me encontro em paz por expressar-me de um modo desigual de como me expressava no início, mas observo a minha mudança e julgo-me em voz baixa, meio emudecida. Já não enxergo tal vantagem em ser literalmente transparente. Sou lago sujo e parado, não muito em todas as horas de minha vida, na verdade sou assim (talvez) em poucas delas... mas sou. Diante da liberdade aprisionada em que me encontro, prefiro conter-me em meu abrigo até que a primavera convide-me a ausentar-se um pouco de onde tenho me acostumado a permanecer. Acomodada, com a cômoda próxima a cama possuindo velas acesas e um cinzeiro contendo aquilo que acabei de tragar. Engraçado como tudo pode tornar-se cinza dependendo do ponto de vista de um ser. Um amor quando fogo não cuidado, queimará todas as lenhas e restarão apenas as cinzas, uma amizade quando morre, também torna-se cinza, o papel quando queimado, os pensamentos e tudo aquilo o que é existente. Eis que tudo está propício a tornar-se um tufo de cinzas acumuladas em algum lugar relativo. "Todo carnaval tem seu fim" e o "carnaval" dito na bela e melancólica frase poderá muito bem não significar apenas comemoração chegando ao fim, mas alegrias e tristezas, certezas e incertezas, acumuladas todas elas em um depósito crucificável de algumas coisas concretas que chegam ao fim. Desabafo, desabafo e não há fim. Não agora, mas numa hora dessas um fim pode ser a cura, talvez dolorosa ou calma, sem dor. Mas eis que falo, falo, falo e não me abalo. São palavras e mais palavras entre linhas sem rimas em que escrevo sem chegar a um ponto conclusivo. Cheio de confusão e falta de sentido, insanidade, insatisfeita. Fecho os olhos, ouço a melodia, levanto involuntariamente minhas pálpebras e observo as luzes coloridas do pisca-pisca ligado, tentando perceber se ele traz alguma alegria diferente ao dia chuvoso que não moveu as águas imaginárias presentes em mim. Até agora tudo tem mudado, mas é como se eu estivesse viajando incessantemente procurando um modo de terminar esse escrito confuso e não tenho encontrado. Percebo tais mudanças e permaneço calada ou grito de uma vez na agonia de que tudo mude e transpareça por meus olhos. Ainda não encontrei a palavra certa antes do ponto final para colocar fim as palavras confusas, vou terminar como está. Acomodei-me aqui em meu quarto, talvez até demais.